Artigo: Futuro em tempos de ruptura

"Precisamos ser cientistas do cotidiano, com um olhar atento para as pistas que ele nos traz sobre o mundo que vamos encontrar no futuro"

em 08/04/2020

Artigo: Futuro em tempos de ruptura

Por Isabela Petrosillo*

Será que as empresas e os profissionais estão preparados para mudanças repentinas? Estamos nos direcionando a uma realidade cada vez mais disruptiva. A propagação da Covid-19 nos mostra como as mudanças podem ser mais súbitas do que imaginávamos. A urgência do cenário atual nos faz repensar, de maneira incontornável, nossa relação com a tecnologia, o trabalho e as dinâmicas de produção e consumo. 

Nesse contexto, qual a importância dos estudos de futuro para as empresas e os profissionais? Apesar de não ser possível dizer com exatidão o que acontecerá a longo prazo, mapear cenários de futuros permite que estejamos mais preparados para a realidade que se apresentará.

A pergunta do momento: como será o mundo após o controle da pandemia, o que permanece e o que muda? Momentos de ruptura são ideais para entendermos o protagonismo de desenvolver constantemente uma visão estratégica a longo prazo. Decisões que para algumas empresas pareciam adiáveis, tornaram-se pauta do dia, devido a situação incontornável que estamos. 

No contexto Covid-19, como em outras situações similares, há duas frentes de atuação fundamentais. A primeira é a preparação pré-crise, o que não significa, obviamente, prevê-la, mas entender as dinâmicas sociais de cada momento, para conseguir vislumbrar a chegada de mudanças significativas. Muitas pesquisas de tendências já apontavam para alguma grande ruptura que aconteceria em breve. Aqueles que já estavam com esse olhar para o futuro e para outras tendências gerais, tiveram um tempo de adaptação mais eficaz.

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O que são estudos de futuro?

O segundo ponto é o desenho de cenários pós-crise. Enquanto passamos por momentos nos quais as incertezas são mais evidentes, muitas vezes o foco está em resolver questões emergenciais. Porém, tão necessário quanto isso é criar possibilidades de futuro que estarão em vigor após as mudanças. Com isso em mente, é possível uma transição mais suave além de um direcionamento para as ações, por meio de metas para a construção desse futuro.

Em 2018, uma das palestrantes do 1º Festival Futuros Possíveis, evento anual do Lab de Tendências da Casa Firjan, comentou que empresas que não se prepararem para o que vai acontecer em 20 anos, não estarão no mercado daqui a 20 anos. Pensar o futuro não é fazer uma previsão certeira ou olhar uma bola de cristal. É, na verdade, uma capacidade imaginativa e de projeção, habilidades que podem e devem ser desenvolvidas por todos. Precisamos analisar o que o presente nos mostra, ao mesmo tempo que avaliamos os padrões passados, para extrair as informações necessárias e, então, vislumbrar cenários de futuros possíveis.

O tempo de resposta em situações de crise é vital. Nisso também reside a importância dos estudos de futuro: nossa resposta e capacidade adaptativa a diferentes cenários. Ao mapear possibilidades a longo prazo, podemos equipar nossa caixa de ferramentas e, no momento da ação, seja ela qual for, conseguir traçar estratégias com menor chance de equívocos.

Um dos pontos abordados pela pesquisa do Lab de Tendências da Casa Firjan, apresentada no 2º Festival Futuros Possíveis, foi a necessidade das empresas se repensarem, por uma demanda tanto ambiental quanto social. Ao longo de 2019, acompanhamos diversos veículos de comunicação abordarem a importância da reavaliação das dinâmicas de consumo e produção atuais, pensando em saídas mais sustentáveis a longo prazo. Essas mudanças pareciam vir gradativamente, porém, foi imposto ao mundo um momento de ruptura para que atuássemos em conjunto, numa revisão de nossas práticas. 

Novas dinâmicas de colaboração entre pessoas para além das fronteiras geográficas, equipes descentralizadas, práticas variadas de organizações de trabalho e redução dos impactos da produção. Somos um laboratório vivo em constante transformação. Precisamos ser cientistas do cotidiano, com um olhar atento para as pistas que ele nos traz sobre o mundo que vamos encontrar no futuro. E, mais importante, sobre os mundos que queremos construir daqui para frente. 

Isabela Petrosillo
*Isabela Petrosillo é pesquisadora do Lab de Tendências da Casa Firjan

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