Artigo: Reconversão industrial - desafios e oportunidades

"Além dos benefícios para a continuidade dos negócios, a reconversão industrial tem um importante caráter de responsabilidade social"

em 07/05/2020

Artigo: Reconversão industrial - desafios e oportunidades

Por Nathália Coelho*

Momentos de crise exigem a tomada de decisões de forma ágil e estratégica, para responder às demandas mais urgentes que atingem a sociedade. A adaptação ou a reorientação da indústria considera as exigências sociais e econômicas de um determinado período, alterando os processos ou adaptando sua atividade produtiva para fabricação de itens essenciais.

A pandemia do coronavírus insere o mundo em um contexto de economia bélica, segundo Kenneth Rogoff, professor de economia e política pública na Universidade Harvard, que já atuou como economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. Essa situação peculiar de demandas urgentes, com escassez de equipamentos e matérias-primas, faz com que os governos aumentem os gastos públicos. Além disso, em alguns países se coloca a exigência que fábricas produzam materiais para o setor da saúde, como é o caso dos EUA, que acionou a Lei de Produção de Defesa de 1950, uma norma que remonta ao período da Guerra da Coreia.

Com parte significativa dos setores econômicos com suas atividades reduzidas, a reconversão industrial tem sido utilizada como uma das alternativas para que a indústria mantenha sua operação. Além dos benefícios para a continuidade dos negócios, essa ação tem um importante caráter de responsabilidade social, fazendo com que as empresas se alinhem ao contexto atual, criando maior relevância para os stakeholders.

No Brasil, algumas empresas têm tomado iniciativa própria, como a Mercedes-Benz realizando testes para produzir respiradores e máscaras de proteção facial. A Ambev, empresa dedicada à produção de bebidas, com a produção de álcool em gel para doação em hospitais, inovando em matéria-prima e criando linhas de produção exclusivas.

Outros exemplos vêm do setor de cosméticos, o grupo O Boticário fabricando álcool em gel e sabonetes para serem doados a pessoas em vulnerabilidade social, governo e redes públicas de saúde. A L'Oréal Brasil realizou a distribuição de álcool em gel e outros produtos de higiene pessoal para uma das maiores comunidades do país, a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

A mudança nas linhas de produção fabris não é uma tarefa fácil, muitas vezes envolve a adequação do maquinário e da mão de obra e alterações no layout da fábrica para preservar a saúde dos trabalhadores. Apesar disso, a inovação não está restrita a grandes empresas. Para auxiliar na transição das plantas produtivas, uma das alternativas é identificar quais maquinários e matérias-primas já disponíveis podem ser redirecionados, adaptando as expertises para novos produtos.

No Aquário Casa Firjan sobre reconversão industrial, algumas oportunidades foram destacadas. Um benéfico é para a imagem das indústrias, que podem reforçar sua relevância para a população, além da possibilidade de ampliar suas frentes de atuação. Outro são as parcerias entre empresas locais, institutos de pesquisa, universidades, governos e investidores, o que potencializa as práticas inovadoras e aumenta o fluxo de conhecimento e de recursos. Como foi mencionado no debate, empresas do ramo têxtil estão se adaptando para atender a demanda de máscaras, tocas, aventais, jalecos e capotes para os profissionais da saúde. Além delas, o setor de plástico também tem se mostrado atuante suprindo demandas por Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Assim como há oportunidades, existem também desafios. Um dos principais deles é a inserção em novos negócios. Comercializar produtos, principalmente vinculados à área da saúde, implica atender uma série de parâmetros e obter certificações. Devido à gravidade do momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) flexibilizou suas regras de venda e fabricação de itens para higienização. Outra questão, são as medidas de segurança fabris e os protocolos de saúde, como o distanciamento social e o controle da limpeza do ambiente.

Como é possível perceber, a temática da reconversão industrial engloba muitas variáveis e permite um debate amplo. Este momento oferece a possibilidade da indústria nacional se reposicionar, tornando-se menos dependente de tecnologia externa por exemplo, ou fazendo com que a prática da reconversão não seja algo momentâneo, mas sim uma nova oportunidade de negócio e mercado consumidor. Será que essas novas perspectivas sobre a produção irão acelerar a disseminação da Indústria 4.0 no Brasil?

Nathália Coelho
*Nathália Coelho é pesquisadora do Lab de Tendências da Casa Firjan

 

Tópicos:
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