Artigo: Contabilidade de ganhos - Foco em aumentar a rentabilidade para superar a crise

"A Contabilidade de ganhos é um recurso importante para auxiliar o empresário a definir estratégias de curto prazo para melhorar seu fluxo de caixa"

em 08/05/2020

Artigo: Contabilidade de ganhos - Foco em aumentar a rentabilidade para superar a crise

Por Michel Peçanha*

Estamos vivendo um momento conturbado devido ao enfrentamento da pandemia COVID-19, isso impõe um cenário desafiador a nossas empresas que precisam imediatamente repensar suas estratégias para conseguir sobreviver aos impactos que esta crise nos traz. Esse contexto catastrófico demanda a quebra de diversos paradigmas, tanto no âmbito social quanto no econômico.

Sob a perspectiva social, estamos de maneira compulsória transformando os nossos hábitos de relacionamento com familiares e amigos e adotando o distanciamento social, além de estarmos submetidos a severas restrições à circulação de pessoas. Essas ações são necessárias e fundamentais para manutenção da vida e proteção daqueles que nos são queridos. Mas e sob o olhar econômico? Quais seriam as ferramentas e estratégias que um negócio poderia adotar para sobreviver a esta crise? E o mais importante, quais são os obstáculos que teremos pela frente?

O objetivo deste texto é trazer pelos menos uma resposta a essas perguntas, na forma de uma reflexão que servirá para quebrarmos o paradigma tradicional da contabilidade de custos, e termos uma visão para os ganhos de uma empresa, e responder também como um negócio pode usar este olhar para focar em ações que lhe trarão maior rentabilidade e ganhos em seu fluxo de caixa. Devemos nos lembrar também que essas ações sozinhas não garantem sucesso contra a crise, lembre-se: são ferramentas! Use e abuse para obter melhores resultados, mas faça sempre em conjunto com outras práticas que também lhe tragam retorno.

Para concluirmos nossa introdução, não podemos esquecer de citar que, além das medidas que as empresas estão adotando de maneira individual, o amparo governamental é fundamental e imprescindível para sustentabilidade da nossa economia nesses tempos tão difíceis e desafiadores, em especial para as empresas de pequeno e médio porte.

Contabilidade de custos x Contabilidade de ganhos
É bem provável que a grande maioria das empresas hoje tenham como um de seus princípios de contabilidade e gestão a Contabilidade de Custos (CC), que se concentra principalmente em cortar custos e reduzir despesas para assim aumentar o lucro. Se analisarmos pela perspectiva de seus produtos, o preço de cada um é o resultado de saída da equação de custo:

Custos diretos (variáveis e fixos)+
Custos indiretos (variáveis e fixos)+
Custos complementares (outros impostos,depreciação,provisões,…)+
Margem de lucro=

PREÇO

Considerando o contexto de crise atual, não nos resta dúvidas que enxugar gastos seja benéfico para qualquer negócio, mas será que de fato a empresa esteja ganhando mais dinheiro quando fazemos isso? Esse questionamento que mobilizou o físico Eliyahu M. Goldratt a propor a Contabilidade de Ganhos (CG), técnica usada como medida de desempenho da sua Teoria das Restrições (ToC). É uma ferramenta de inteligência do negócio utilizada para maximizar o lucro, concentrando-se principalmente no aumento da velocidade com que o Ganho é gerado por seus produtos e serviços, respeitando as restrições da organização. Seu princípio fundamental baseia-se na premissa de que o objetivo de qualquer empresa privada fornecedora de bens e serviços seja ganhar dinheiro, hoje e no futuro. É uma ferramenta de uso interno, ou seja, ela não substitui a contabilidade tradicional, seu nome é dado apenas para que o enfoque gerencial seja o potencial de ganho da empresa.

O primeiro paradigma que a CG quebra é justamente a forma de se chegar no Preço de produtos e serviços. Na Contabilidade de Ganhos, o preço é o dado de entrada da equação de custos, sendo sua origem a percepção de valor dos clientes que o consomem. Esse conceito faz com que seja amplamente usada por organizações alinhadas às práticas do Lean Manufacturing. Para essas empresas, o Mercado é quem define o preço de seus produtos.

ilustra

O segundo paradigma a ser quebrado é a respeito do Custo Real. A Contabilidade de Ganhos define que o Custo Real é uma composição da soma dos Custos dos Produtos com o Custo de manter a Empresa.

Custo dos Produtos: Custo de todos os produtos produzidos, também chamados de Custos Totalmente Variáveis (CTV), são os custos que variam uniformemente em função do volume de produção. Temos como exemplo despesas com matérias-primas, logística, serviços de beneficiamento, e muitos outros.

Custos de manter a Empresa: inclui despesas com folha de pagamento, aluguéis, instalações, contratos etc. É importante estarmos atentos que os custos da empresa também podem ser variáveis, como despesas com Energia Elétrica por exemplo, mas sabemos que tais custos não variam totalmente em função direta ao volume produzido. Para ilustrar uma situação, o custo com energia elétrica pode aumentar em função da instalação de novos aparelhos de ar-condicionado para a área administrativa, sendo que esta ação não tem relação direta com o volume produzido.

Medidas de desempenho da contabilidade de ganhos
Antes de finalizarmos nossa revisão teórica, é importante nos ambientarmos de certas dimensões que foram pensadas por Goldratt para simplificar o entendimento de Ganho por todos em uma organização. Para isso ele considerou três questões direcionadoras:

•    Quanto de dinheiro nossa empresa é capaz de gerar?
•    Quanto dinheiro é capturado pela nossa empresa? e
•    Quanto dinheiro deve-se gastar para operá-la?

Goldratt também observou que era necessária uma ferramenta contábil simples para que fosse possível determinar se uma ação local conseguiria refletir no sistema inteiro e para isso definiu três dimensões principais:

Ganho: É quanto dinheiro é gerado através da venda de seus produtos e serviços. Uma observação importante é que o ganho só considera aquilo que foi efetivamente faturado, ou seja, tudo aquilo que foi produzido, mas não foi vendido não pode ser considerado ganho. De uma maneira geral, é um cálculo simples de receita menos o CTV de se produzir os produtos.

Inventário: É o valor gasto com tudo aquilo que é comprado para que o sistema possa vender no futuro, ou seja, é todo o capital investido nas operações da empresa e inclui ativos, estoques de matéria-prima, máquinas, mobiliário, estoque de produtos acabados etc. Importante lembrarmos que nesse montante não são empenhados os custos com mão de obra e outras despesas já que, como vimos anteriormente, esses são custos da empresa e são definidos melhor pela dimensão a seguir.

Despesa Operacional: É todo o dinheiro que a empresa gasta para transformar Inventário em Ganho, e isso inclui despesas fixas como folha de pagamento, aluguel, despesas de contratos de serviços, seguros, impostos etc. e também despesas variáveis, mas somente aquelas que não se enquadram como CTV, como despesas com água, energia, telefonia, gás, depreciação etc.

Aplicação da contabilidade de ganhos na definição do mix de vendas
Você nesse momento pode estar se perguntando “tudo bem, mas como posso usar isso para melhorar a rentabilidade do meu negócio?”. A aplicação mais simples dos princípios da CG é justamente na tomada de decisão sobre o melhor mix de produção/vendas. Considerando ainda nosso cenário de crise, a decisão sobre quais produtos priorizar tem que resultar em retornos rápidos para o negócio. Podemos afirmar que o controle sobre o Fluxo de Caixa é uma medida de sobrevivência. Então vamos encerrar nossa teoria e partir para a prática.
Para análise de um mix específico, vamos usar um caso de estudo e em seguida executar 5 etapas:

1.    Classificação dos produtos e sua participação no faturamento
2.    Definir a cadeia de processos para fabricar cada produto e identificar o processo gargalo
3.    Classificar os produtos pelo ganho considerando o tempo no processo gargalo
4.    Corrigindo a programação da produção conforme a classificação de ganhos
5.    Análise gerencial

Para nossa análise vamos usar o caso da empresa MÓVEL, de pequeno porte, que fabrica 5 tipos de produtos:

Tabela Contabilidade 1

A MÓVEL mantém seu expediente de segundas às sextas-feiras, não tendo atividades aos sábados, domingos ou feriados. Sua jornada de trabalho é de 1 turno de 8 horas em seus dias úteis, considerando um período médio de 20 dias úteis em um mês, a empresa dispõe de 160 horas (ou 9.600 minutos) disponíveis para produção no período.

PASSO 1: Classificar conforme o faturamento.
Sabendo o nosso mix de produtos, faremos uma rápida classificação para sabermos quais são os campeões de fazer dinheiro atualmente, para isso ajustamos a tabela anterior e calculamos o percentual de participação de cada produto, em seguida ordenamos de maneira decrescente.

tab 2


PASSO 2: Definir a cadeia de processos e identificar a etapa gargalo.
Chegou o momento de sabermos qual é a nossa taxa de fazer dinheiro, para isso é fundamental que saibamos quanto tempo cada produto leva em cada etapa de seu processo de produção. Usamos a tabela a seguir para cruzar as informações dos centros de trabalho (processos) por quais cada produto passa, com o tempo em que cada produto leva em cada um. Lembre sempre de multiplicar o tempo unitário pela demanda de cada produto para obtermos o tempo total necessário.

tab3

No resultado a nossa análise, para o mix de produtos da MÓVEL o processo de usinagem é o processo gargalo, já que ele não dispõe de tempo suficiente no mês para concluir o mix inteiro. Isso significa também que a MÓVEL está deixando de atender a alguns pedidos, o que diminui o faturamento total no mês.

Voltando um pouquinho ao nosso conteúdo teórico, Goldratt define restrição de forma precisa: “aquilo que, se a empresa tivesse mais, ela ganharia mais dinheiro”. A partir desse conceito ele desenvolveu um processo de gestão baseado em 5 passos, que serão abordados de maneira mais ampla na conclusão deste artigo. 

PASSO 3: Classificar os produtos pela taxa de Ganho no gargalo
Agora que a MÓVEL já sabe que o processo de usinagem é o seu gargalo, devemos saber qual a frequência com que o ganho passa nesta operação para cada produto. Isso nos ajudará a definir o melhor mix de produção e escolher as melhores estratégias de venda para aumentar a rentabilidade do negócio. Nosso objetivo com esta análise é maximizar a produção e venda dos produtos que trazem o maior ganho para a empresa, e para isso precisamos saber qual o custo (CTV) unitário de se produzir cada um. Veja a análise a seguir.

tab4


Com a análise anterior, sabemos que o produto que traz maior rentabilidade para a empresa é a Mesa. Essa informação é vital para definição de novas estratégias para o negócio, que pode imediatamente iniciar campanhas de marketing e explorar novos canais de venda para alavancar a demanda desse produto no curto prazo. Com essa informação em mãos, a MÓVEL também tem possibilidade de definir a sequência em sua programação de produção e melhor estratégia de atendimento às vendas, bastando definir uma prioridade para atendimento de pedidos seguindo esta classificação de produtos:

1.    Mesa
2.    Aparador
3.    Rack
4.    Nicho
5.    Cadeira

PASSO 4: Corrigindo a programação de produção.
Agora que a MÓVEL sabe que o produto que lhe rende a maior taxa de ganhos é a mesa, é muito importante que a programação do processo gargalo considere esse fator como prioridade de entregas. De modo a ajustar a programação, podemos fazer um exercício simples de qual seria o volume de produção ideal no processo de usinagem para que a empresa maximize o seu ganho.
 

tab5

A tabela anterior define a quantidade a se produzir de cada item dentro de um mês com base na demanda média informada, perceba que o produto Cadeira não vai ser produzido em quantidade suficiente para satisfazer a demanda de 380 unidades, mas devido ao ganho analisado, este é o menor impacto negativo que o exercício da Contabilidade de Ganhos nos proporciona.

PASSO 5: Análise gerencial dos resultados
Agora precisamos avaliar o impacto positivo da reprogramação do mix de venda nos resultados da MÓVEL. Para conseguirmos ter uma avaliação precisa, precisamos levantar todos os custos e despesas que serão classificados como Despesa Operacional como vimos anteriormente, ou seja, todos aqueles custos que a empresa tem mensalmente para conseguir operar. Para efeitos de análise da MÓVEL, foi apurado que a soma de todas as despesas com folha, encargos, aluguel, água, energia, contratos, seguros e depreciação contabilizam R$ 51.000,00 mensais. Dessa forma, calculamos o Ganho obtido com a venda dos produtos seguindo a sequência proposta e debitamos o custo total de produzir o mix de produtos. Com o Ganho obtido, subtraímos a despesa operacional para obtermos o Lucro Líquido do período.

tab6


Com a aplicação da Contabilidade de Ganhos, a MÓVEL apresentou um excelente resultado e garantiu que a perda fosse mínima, já que priorizou a produção e venda dos produtos que tem maior rentabilidade.

Conclusão
Neste texto também observamos a presença de uma restrição, ou gargalo, em um sistema de produção. Como a Contabilidade de Ganhos é um elemento da Teoria das Restrições, fica evidente que seus resultados serão ainda melhores quando respeitados os 5 passos definidos por Eliyahu M. Goldratt:

1.    Identificar a(s) restrição(ões) da empresa: considerando seu objetivo - ganhar mais dinheiro hoje, e no futuro!
2.    Explorar a(s) restrição(ões) da empresa: garantir alta disponibilidade, desempenho e qualidade, eliminar desperdícios, reduzir variações, buscar alternativas produtivas.
3.    Subordinar todo o sistema à(s) restrição(ões): reduzir inventário, programar a produção, definir mix, nivelar a produção.
4.    Elevar a(s) restrição(ões) da empresa: aumentar capacidade.
5.    Se, nos passos anteriores, uma restrição deixar de ser restrição, volte ao primeiro passo.

A Contabilidade de Ganhos se mostrou uma ferramenta eficaz e uma alternativa interessante para a rápida tomada de decisão, aliada com a simplicidade de entendimento de seus conceitos fundamentais e facilidade na sua aplicação prática e análise. Considerando um cenário econômico desafiador, em especial para as pequenas e médias empresas que sofrem com a redução da demanda e restrições severas de suas operações, a CG apresenta-se como um recurso importante para auxiliar o empresário a definir estratégias de curto prazo para melhorar seu fluxo de caixa e pode objetivamente se somar a iniciativas de melhoria operacional e redução de desperdícios como aplicação da Teoria das Restrições, Lean Thinking e Six Sigma.

 

Michel
*Michel Peçanha é especialista em Gestão Empresarial Firjan IEL

 

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